Quando O Expediente Acaba Pra Deus

21 de dezembro de 2016

Deus, brincando de ser ele mesmo, chegou bravo, disse coisas ruins com palavras boas, ergueu o dedo indicador, depois disse que eu me ofendo fácil demais. Comprou umas cervejas no bar, bebeu no caminho. Ele também merece uma folga. Diz que por eu ser de Vênus não dá pra ser mais nada e também nem sou tão bonita assim. Ele arrota conceitos e medos sobre mim, e eu fico quieta porque em casa aprendi a escutar quando Deus fala e não a responder. Deus sabe o que faz. Eu não.

Ele deita no sofá, eu tropeço na mesinha de centro. As coisas ficam ruins, Deus não está de bom humor, poucas vezes está. Ele não acha que eu saiba o meu lugar, eu choro porque acredito, ele grita porque chorei.

Às vezes Deus me enche a porra do saco, mas as palavras não saem, as palavras têm medo. Então ele dorme de novo e eu torço para não fazer barulho enquanto existo.

Todo o dia é um dia a mais e eu deveria agradecer, ele diz, tenho Deus comigo. Mas me pergunto: eu sou o quê? Sou meu choro escondido e minha roupa rasgada quando falei demais, gritei demais, era só ter ficado quieta. Sou tudo aquilo que não posso dominar sobre mim, sobre meu corpo, minha alma. Sou o que ele disser que sou, e ai de mim se não for. Sou meu medo escondido que todo mundo consegue ver mas ninguém quer enxergar. Sou a casa limpa, a roupa lavada e a comida pronta que Deus não gostou. Desculpa. Desculpa pelo que sou, eu peço a mim, peço a ele, peço ao mundo.

Sou minha eterna desculpa para não ser.


as coisas que a gente faz

14 de novembro de 2016

as coisas
são como
coisas mesmo,
nós é quem
as colocamos
numa posição
ruim.


Quando eu tive a oportunidade de contar sobre você pro atendente de telemarketing do Itaú

1 de julho de 2016

Você vem com uma pitada de desespero,
Ou talvez eu que esteja por um fio
Você vai com uma parte da minha lucidez
E minha lucidez nunca esteve por aqui

Onde está você?
Não diz que ao meu lado, eu te peço
Eu já nem sei onde estou
Meu medo é não te encontrar

Meu medo é te perder nos porta-retratos
Nos álbuns de família
No vídeo de casamento da sua prima de Belém
Na reportagem do jornal local que você disse achar um absurdo aquilo lá que o prefeito fez

Meu medo é te encontrar diferente
do que eu contei pros outros
do que eu criei pra mim
daquela vez que eu perdi quando você viu um feixe de luz diferente correr pelo céu

Essas pequenas coisas
essas que guardamos em caixas de perfume ou amassadas na carteira
vão sumindo, às vezes
e só às vezes a gente nem vê

E então eu gostaria que você viesse
com uma parte da minha sanidade
e daquela coragem
que eu perdi

 


Coisas que os meninos falam na rua no intervalo dos jogos de futebol

6 de agosto de 2015

Existe uma regra, criada por meninos que jogam bola descalços na rua, e usam garrafas pet como gol, que diz que as pessoas de coração puro devem estar por ai em algum lugar, e que se você encontrá-las, bem… Nesse caso pode ser que consiga aprender algo com elas. Não seria maravilhoso? O que você iria querer saber primeiro?
Eu, provavelmente, pediria algumas dicas sobre como escrever coisas inspiradoras e bonitas em dias em que não me sinto assim, e depois, ia querer compor uma canção que carregasse as verdades boas sobre essa vida, então, pegaria todas as pessoas de bom coração que me ajudaram nisso, e sairia tocando ela pelos bairros e becos e pequenos cantos sem esperança da cidade, eu faria isso, e a essa altura já teria aprendido a não me importar em parecer ridícula por estar fazendo algo bom. Contaria um segredo às pessoas de bom coração, não teria medo. Diria á respeito das apresentações de jazz que assisti querendo fazer parte, mas que deixei pra lá a vida toda por ser muito desajeitada, e talvez elas me ensinassem a ter um pouco mais de confiança em quem sou e aproveitar as oportunidades para pequenas coisas que dentro de nós fazem uma grande falta.
Fico me perguntando às vezes, se essas pessoas de bom coração teriam o dom de me devolver algumas habilidades da infância, como por exemplo, acreditar em pequenas histórias bobas e fazer desenhos que se movimentam de acordo com o que a imaginação manda. Ia querer isso delas se fosse possível.
Uma coisa boa sobre quem tem bom coração, e isso, foram os meninos que me disseram, elas não se cansam de lhe ensinar e ajudar a ser alguém melhor, elas até gostam, é verdade, pode acreditar. Então eu aproveitaria e pediria para me ensinarem algum mantra que me impedisse de achar tudo sempre tão ruim, mesmo que tudo seja sempre tão ruim.
O curioso sobre meninos que jogam bola descalços na rua e têm informações importantes sobre pessoas de bom coração, é que eles te fazem notar que desde o primeiro momento em que você se dispõe a procurar essas pessoas, já começa a se sentir mais leve, começam a desabrochar sorrisos e pequenas poesias em paredes escondidas, o que me leva a acreditar, que das procuras dessa vida, essa seja a de maior valia.
Talvez corações puros não sejam para todos, ou esse seja um clube muito exclusivo na cidade, ou talvez, sejam só os meninos da rua tentando arrancar um pouco de esperança da gente.


2 de julho de 2015

É hora de trancar as portas
e esperar
De ficar bem quieto dentro do escuro
pra não incomodar
Não dizer uma palavra,
porque essas coisas
são como noticias noturnas na TV
que ninguém quer ouvir depois do jantar.
Um problema
é sempre a porra de um problema
mas eu não ligo se você não ligar.


Sobre não saber gostar

17 de outubro de 2013

Não te tenho e não te quero ter, porque sei que não saberia como. Porque sou o tipo de pessoa que estraga um dia bom com uma briga boba no fim da tarde sobre seu corte de cabelo, ou porque me escondo do mundo quando não estou feliz comigo mesma. Não me permito chamar-te meu porque não aprendi como é que se toma conta de alguém, e não mereces tão pouco. Porém, lhe deixo ficar, e não questiono. E se o faço, é bem baixinho para não lhe fazer ouvir e perceber que não te sirvo nem pra aquecer no inverno, com essas mãos sempre tão frias. Saberia ser mais convincente se me coubesse a coragem para enumerar motivos para que vá embora, no entanto, nunca dei fim na busca por uma frase que seja que lhe faça ficar.
Não sei dizer que te amo, nem possuo a força para lhe trazer pra perto, reconheço a injustiça de não retribuir teus elogios, e queria que soubesses que toda vez que assim ajo, se compara a uma dose de veneno, que vai matando aos poucos aqui dentro.
Não leve a mal, não sou dessas amantes clássicas com beijos na chuva, danças a dois. Não sei jurar amor eterno. Não quer dizer que não sinta. Sinto tanto que paro meus instintos de ser livre pra te ter nas mãos. Sinto tanto, que as únicas amarras que usas são teus olhos, então fico. Eu que nunca quis ficar.
Mas sei que não sou digna, que sempre faço alguma coisa ruim. Dia desses tentei me parar, não me deixar querer tanto. Não sei lidar com sua presença em proporção ao quanto desejo.
Serás uma nuvem escura, porque gosto de dias nublados. Serás uma estrela pequena no céu cheio delas, porque me apego aos detalhes. Serás uma canção preguiçosa em dias de chuva, porque lhe repetirei o dia todo… Mas acima de tudo, sejais paciente quando me falta ser tudo o que merece, porque já lhe perdi todo o tempo que vivi sem tê-lo. Não acho que suportaria outra vez me contentar com o vazio de uma vida sem ti.


Mental Health Note

24 de julho de 2013

But you are too okay, and I’m way too insane.
I’m demaged.
I’m confused.
I’m insecure.
I don’t feel like completing anyone.
Because I don’t even know how to pick the pieces of myself.
And god, you are too all right to me.
How could that make sense?
I mean… To allow you to be around someone like me.
I’m sorry.
I really apologize.
From being in such a disgusting state of mind.